Luis & Glorinha: o futebol e a ditadura da intimidade.
Embora às vezes pareçam dois conhecidos recentes, Luis e Glorinha vivem incontáveis aventuras diárias há quase 60 anos. Ele é tricolor de aço desde antes de nascer; ela, rubro-negra para além da imaginação. Juntos os dois veem os jornais, as novelas e todos os campeonatos existentes neste planeta, claro que sempre de lados opostos. É que depois do futebol, o esporte preferido do casal é discordar.
03.07.11
Brasil x Venezuela
Domingo é o dia preferido de Luis, que sempre acompanhou todos os campeonatos que conheceu, da esquina à Plutão, in locu, pelo rádio ou pela tv, porque tem pavor das chamadas novas tecnologias. Ao contrário de Glorinha, que anda fascinada com o “lepitopi” que o filho mandou pelo correio com uma carta longa e explicativa.
E este domingo prometia. Era a primeira vez que vestiriam as mesmas cores para torcer desde que Glorinha anunciou estar apaixonada pelo Futebol, e ainda veriam juntos os dois jogos da Seleção Brasileira, o da seleção feminina, pela Copa do Mundo da Fifa, e o da seleção masculina, pela Copa América.
Mas a verdade é que ele acordou assim radiante porque foi dormir em êxtase com a derrota do “time que ele não gosta de pronunciar nem o nome”, e que ouviu pelo rádio, bem baixinho, tentando evitar uma discussão. O que Luis ainda não sabe, é que Glorinha também acompanhava o jogo pelo computador e ouviu desde o início a movimentação do marido e a narração do locutor, além do sapateado que ecoou do banheiro no exato momento do gol do Barueri contra o Vitória, aos 12 do primeiro tempo na cabeçada de Marcelinho.
A manhã seguia amistosa porque Glorinha se esforçava pra não cair nas tentações da pirraça implícita no sorriso eterno e mal disfarçado de Luis. – Tá feliz, né Preto? – Domingo né, minha velha, melhor dia da semana. – Sei.
Até que se encontraram no sofá, devidamente vestidos de verde e amarelo pra acompanhar Brasil e Noruega. E não demorou muito estavam abraçados comemorando o primeiro gol de Marta, numa arrancada pela direita com um corte preciso pra bater no canto esquerdo da goleira Hjelmseth. – Que beleza de jogada! – Uma maravilha! Essa moça realmente é fora de série.
O menos importante para os dois naquele momento era a faltinha do início do lance. E à medida que Marta enfim desfilava como a melhor jogadora do planeta durante a Copa da Mundo, crescia o entusiasmo dos dois velhinhos apaixonados pelo futebol arte. Ainda não tinha completado o primeiro minuto do segundo tempo quando ela disparou pela esquerda e entrou na área norueguesa como quis, antes de achar Rosana livre pra chutar de pé direito e fazer o segundo gol do Brasil. Quando saiu o terceiro, o segundo de Marta no torneio e na partida, os dois já estavam completamente entregues à uma inesperada lua de mel.
Que evidentemente só durou até os minutos iniciais de Brasil e Venezuela, não exatamente pelas chances perdidas por Pato e Robinho, mas pelo comentário de Luis, que Glorinha julgou pirraça cifrada. – Mas será possível que esse pessoal não acerta o pé? – Tenha paciência, criatura, é só o primeiro jogo. – Se Jobson tivesse jogando já tava 1 a 0 pro Brasil fácil. – Mas realmente…seu mal é esse Luis. – O que foi agora, Gloria? – Eu te conheço, Luis, vc me aguarde.
Como era de se esperar, Luis e Glorinha discordaram da exibição de cada jogador, das substituições feitas por Mano Menezes e até do peso do empate no primeiro jogo. – É penalti!!! Isso é pênalti, seu juiz!!! – Penalti o quê, Luis, vc quer que o rapaz arranque o braço? Isso aí é bola na mão, meu querido … – Vai tirar Robinho pra botar Fred? Valha-me Deus! – Não era vc que tava pedindo pra tirar Robinho, Luis?? – Sim, mas era pra entrar o Lucas, não o Fred!
Veio o fim do jogo e o insistente 0 a 0 afinal prevaleceu. E Luis e Glorinha foram dormir chateados e cismados. Ele, com o resultado do jogo, a reputação da seleção brasileira e a nova fase da esposa. Ela com a soberba tricolor do marido e com a política internacional. – Empatar com a Venezuela! Aonde é que nós estamos?! Quero saber como vai jogar contra o Paraguai – O que eu queria saber mesmo é onde se meteu o Chavez … – Ora meu deus, Glória!