Luis & Glorinha na Copa América_03

Publicado: 7 de julho de 2011 em Luis & Glorinha - O futebol e a ditadura da intimidade

Luis & Glorinha: o futebol e a ditadura da intimidade.

Embora às vezes pareçam dois conhecidos recentes, Luis e Glorinha vivem incontáveis aventuras diárias há quase 60 anos. Ele é tricolor de aço desde antes de nascer; ela, rubro-negra para além da imaginação. Juntos os dois veem os jornais, as novelas e todos os campeonatos existentes neste planeta, claro que sempre de lados opostos.  É que depois do futebol, o esporte preferido do casal é discordar.

Luis & Glorinha na Copa América 2011

06.07.11

A Argentina e o Bahia

Apesar de seus muitos encantos, a quarta-feira poderia ser ainda melhor não fosse a interferência no horário e na duração da novela, além do horário do jogo, claro, 10 da noite, no meio da semana, um absurdo. Isso era ponto pacífico para Luis e Glorinha. Mas essa quarta-feira tinha mais cara de domingo para os dois aposentados, com os vários jogos da Copa do mundo, Copa América, Brasileiro, e por isso eles planejaram almoçar um pouco mais tarde.

– Então ficou assim: Brasil x Guiné, almoço, sesta, resenha, Bahia x Avaí…- É Avaí x Bahia, Preto. – Eu sei, Glória! – Calma, criatura, pareceu que não sabia. – Às 17h tem Brasil x Uruguai sub 17. – Esse é amanhã, Luis. – Você tá me desconcentrando, Glória. Avaí x Bahia, Flamengo x São Paulo ou Corinthians x Vasco. – Não senhor, no mesmo horário de Argentina x Colômbia? – E daí? – Tenha paciência, Luis. – Preta, esse timinho da Argentina não chega a fogo de palha, é puro blefe. – Essa me parece mais a descrição do Bahia, Luis. – Pois eu acho a cara do Vitória.

Se separaram logo após arrumarem a cozinha depois do café e durante toda a manhã ficariam entretidos com as notícias da cidade, do país, e principalmente, da rodada. Ele, na sala, com os jornais. Ela, com o computador, na saleta que tenta transformar numa sala de leitura e ele insiste chamar de seu escritório. Um pouco antes do meio dia, Luis cochilava sentado no sofá com o jornal nas mãos quando acordou sobressaltado em parte pelas necessidades do estômago, em parte porque pensou estar escutando coisas.

Vacilou entre o sono e a vigília por alguns segundos antes de decidir se levantar e caminhar sorrateiro, ainda mais devagar do que de costume, até confirmar o que vinha pensando no trajeto. Depois de alguns meses de convivência, Luis agradeceu pela primeira vez estar na companhia de sua bengala, porque por um momento chegou mesmo a perder o chão. – Ela está conversando com o computador?!

Depois do chão, perdeu a fome e a audição porque lançou mão de uma prática cada vez mais comum na casa que é tirar o aparelho do ouvido e ficar temporariamente alheio às tentativas de contato do mundo exterior. Quando entrou na sala 5 minutos atrasada e viu a tv ainda desligada Glorinha desconfiou que algo havia acontecido, mas aquele olhar enigmático de Luis e sobretudo o aparelho escapulindo do bolso indicavam que o negócio era mais sério.

O jogo meio xoxo do Brasil no primeiro tempo contribuiu para que ele continuasse amuado e para que ela pudesse matutar o que poderia ter causado tamanho estrago. Ele a observava um tanto ressabiado, mas já com o aparelho no ouvido, enquanto ela tentava se aproximar com comentários sobre o jogo até que o golaço de Erika antes dos 4 do segundo tempo inaugurou o placar e ajudou a melhorar o clima. – Golaço!!! Ahá, com banho de cuia! Já era hora. – Que maravilha, né Preto, golaço.

O jogo terminou 3 a 0 para o Brasil, que joga agora no domingo contra as rivais norte-americanas para chegar à semi-final, e se Glorinha mal pode esperar a hora dessa partida, Luis mal disfarça a ansiedade pelo jogo do Bahia e a preocupação com a esposa. Os dois se sentaram pra almoçar já sabendo todas as escalações, destaques e desfalques dos times que entrariam em campo logo mais à noite, mas ficaram o tempo todo calados como convém em geral a quem não sabe o que dizer.

Luis ficou bastante contrariado por não encontrar o jogo do Bahia no canal da antena que adquiriu especialmente para acompanhar o futebol, e talvez por isso não tenha percebido a ausência de sua esposa no sofá. Alcançou resignado o surrado radinho e ouvia o jogo sozinho na sala até os 19 minutos do primeiro tempo, quando o Avaí abriu o placar com Rafael Coelho, depois do rebote de Marcelo Lomba, e ele se levantou em direção à saleta intrigado com a sincronia do gol do Avaí e o grito de Glorinha. – Gol!!! Muito bem, meu rapaz!!! – Mas, criatura, você sintoniza o jogo do Bahia e nem me avisa? – Não é você que des-pre-za as novas tecnologias? – Não sei se você lembra, mas eu sou aquele que a-ma o Bahia. – Você não me deixa esquecer, meu amor.

Acompanharam então, juntos e pelo computador, o restante da partida. Ele achou estranha a transmissão, a luz, o tamanho da tela, as constantes interrupções do sinal e a familiaridade dela com o equipamento, mas decidiu se concentrar na partida. Ela ainda não havia entendido as oscilações de humor do marido, que julgava estranhamente mais gratuitas e constantes, e decidiu por uma oposição mais contida neste momento e uma conversa posterior com os filhos.

O Bahia assimilou rapidamente o gol sofrido e virou a partida com dois gols em dois minutos, de Junior e Paulo Miranda, duas gratas surpresas deste time tricolor, terminando o primeiro tempo na frente. – Eita que meu Bahia não conta conversa, estraga a festa de qualquer anfitrião. – Logo esse que não ganhou um jogo sequer neste campeonato? – Este campeonato, você disse muito bem, que aliás o seu time não disputa. – Cuidado que peixe morre é pela boca, Luis.

O segundo tempo começou com o Avaí pressionando o Bahia e os dois times perdendo chances claras de gol, para desespero duplo e oposto de Luis e Glorinha. Aos 9 minutos o tricolor perdeu sua maior oportunidade de definir o jogo até ali, com Marcos desperdiçando belo passe de Ricardinho. E o castigo veio mesmo a galope como disse Glorinha ao vento, porque Luis ficou impassível depois do gol de empate de Gustavo Bastos aos 12 minutos, chutando livre de dentro da pequena área.

O jogo terminou empatado, e Luis ficou convencido de que o Bahia poderia ter saído com a vitória no jogo de hoje. Diferente da Argentina que escapou de perder da Colômbia e vem fazendo um papelão na Copa América, em casa, depois do segundo empate sem gols em dois jogos. Glorinha no fundo concorda, mas claro que ele nem desconfia – Luis, sabe qual a semelhança entre a Argentina e o Bahia? Nenhum dos dois vence em casa.

Luis não conseguiu mais esquecer a frase, a expressão dela, toda a cena, definitivamente era chegada a hora de falar com os filhos sobre as idiossincrasias da esposa. Não dizia mais respeito à súbita paixão pelo futebol, na verdade isso agora é o mais fácil de entender. Ela passou a falar com o computador…tudo bem, são as tais novas mídias, não tem gente que responde boa noite ao William Bonner? Mas joguinho de palavras com estatística de futebol não, aí já era demais.

Embora não tivesse mais forças para uma última discussão que a situação sem dúvida exigia, Luis não conseguia conter sua indignação. – Que falta de respeito! – Vai dormir, criatura. – Ora meu deus, Glória!

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