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Luis & Glorinha: o futebol e a ditadura da intimidade.

Embora às vezes pareçam dois conhecidos recentes, Luis e Glorinha vivem incontáveis aventuras diárias há quase 60 anos. Ele é tricolor de aço desde antes de nascer; ela, rubro-negra para além da imaginação. Juntos os dois veem os jornais, as novelas e todos os campeonatos existentes neste planeta, claro que sempre de lados opostos.  É que depois do futebol, o esporte preferido do casal é discordar.

Luis & Glorinha na Copa América

16.07.11

Argentina e Uruguai

Como Luis havia imaginado, a vitória da seleção brasileira sobre o Equador foi um fator determinante para essa boa fase com Glorinha depois de uma semana de emoções intensas. O que ele estava prestes a descobrir é que a novela das 11 também tinha uma contribuição significativa para o bom humor da esposa, porque ela estava absolutamente maravilhada com essa versão atual do folhetim e, principalmente, do Herculano Quintanilha.

Tudo mudou na sexta à noite, claro, porque depois do último jogo em que goleou o Bragantino, o Vitória jogaria no Serra Dourada, contra o Goiás, pela possibilidade de terminar a rodada no G4. Foi então que Luis apareceu no sofá vestido com a camisa do Bahia. – O jogo aqui é Goiás e Vitória, Luis. – Eu sei, Preta, BaVi agora só ano que vem. – Pode tirar esse sorriso do rosto porque você sabe tão bem quanto eu que o Vitória vai subir e o Bahia vai descer. – Calma dona Glorinha, não é a senhora mesmo que diz…- Eu sei o que digo, Preto. – E eu só lhe digo uma coisa e mais nada, vamos em frente.

O Vitória começou bem o jogo e marcou o primeiro gol da partida aos 11 minutos, com Neto Baiano, de cabeça, após cruzamento de Leo, dando falsas e efêmeras esperanças à Glorinha e toda a torcida rubro-negra porque Guto marcou o gol de empate, também de cabeça, aos 16, Carlos Alberto fez o da virada num chute cruzado aos 29, e Alan Bahia fez o terceiro, de falta, aos 33, com a ajuda do goleiro Felipe. Luis a essa altura estava em êxtase, mas sabiamente optou por omitir suas impressões sobre a participação fundamental do goleiro no lance para não despertar fantasmas recém adormecidos. – Que golaço!!!! Alan Bahia me comove, me lembra Zico. – Você gosta de tripudiar, não é Preto? – Eu?! Eu gosto de futebol arte, Preta. – Sentada espero, Luis. – O bom do futebol é isso, Glorinha. –  Deixe estar.

O jogo afinal acabou 4 a 1 para o Goiás, porque o Vitória pouco fez para alterar o placar e Douglas ainda marcou o quarto, também de falta, já nos acréscimos do segundo tempo. Nada poderia estragar a felicidade do velho tricolor, pelo menos era o que ele pensava quando decidiu assistir a tal novela das 11 que a esposa havia falado tanto no dia anterior. – Esse aí faz o personagem do Toni Ramos, então? E quem faz o do Cuoco?

Mas ela não precisou responder, porque encantamento é uma dessas coisas na vida que ninguém consegue disfarçar. Luis então perdeu a pose e o sono, e nem bem o sábado tinha amanhecido já estava de pé. Glorinha, ao contrário, dormiu muito bem e levantou mais tarde que de costume, e só se lembrou da derrota do Vitória e da folia do marido na noite anterior quando o viu sentado na mesa do café. Ela jamais saberia, mas ele estava roído de ciúmes do seu sono tranquilo e dos seus sonhos possíveis. Decidiram não falar nada primeiro porque pensaram  que seria impossível contestar a derrota do rubro-negro e os sonhos alheios, depois porque saber calar é sabedoria que vem mesmo com o tempo.

E o dia seguiu ameno até o início da noite, quando se encontraram para assistir ao primeiro jogo das quartas de final da Copa América, entre Argentina e Uruguai. Em campo, uma rivalidade histórica e 14 títulos para cada lado. No sofá, Luis tentava não pensar no ressurgimento do futebol uruguaio porque julgava que o mais importante naquele momento era ganhar da Argentina, e Glorinha concentrava forças para uma vitória dos Hermanos, porque com o ressurgimento do futebol uruguaio certamente se inquietaria depois.

Logo aos 3 minutos o volante Perez, do Uruguai, recebeu o primeiro cartão amarelo da partida por uma falta violenta em Mascherano.  O mesmo Perez que abriria o placar dois minutos depois, em cobrança de falta de Forlán que Cáceres desviou de cabeça e o goleiro deu rebote. – Amarelo, não, juiz! Tem que conversar primeiro. – Era vermelho sem pestanejar! Aonde é que nós estamos minha gente? – Aháá!!! Gooool do Uruguai!! – Ainda tem muito jogo pela frente, Preto. – Uruguai, Uruguai, Uruguai! – A Argentina vai virar. – Duvideodó, o Uruguai não é o sub 20 da Costa Rica não!

E o jogo seguiu tal como previsto por Luis, com o Uruguai fechado na defesa à espera de uma chance de encaixar um ataque e fazer o gol definitivo, oportunidade que afinal veio para a Argentina aos 17 minutos, num lance que começou com o passe errado de Forlán ainda no campo de ataque uruguaio. Messi recebeu livre pela direita e ainda avançou um pouco com ela grudada no pé antes do passe genial que deixou Higuain na cara do gol para empatar a partida. – Gol!!! Que maravilha de lançamento deste rapaz! – Que vacilo de Lugano!! –Argentina! Argentina! Agora tudo mudou, hein?!

O jogo ganhava emoção e nervosismo em campo e no sofá, e o juiz distribuía cartões amarelos. Até que uma falta cometida no ataque celeste para impedir o contra-ataque argentino rendeu ao autor do gol uruguaio o segundo amarelo, aos 38 minutos. – Ah não, seu juiz!!! Deixa o jogo seguir, meu querido. – Muito me admira você ignorar assim a regra, Preto. – Já vi esse filme, minha filha, foi em 1978. – Menos, Luis. Ele interrompeu o ataque e tinha que levar amarelo, levou o segundo e foi expulso. Está compreendendo como é que é?

O primeiro tempo acabaria mesmo 1 a 1 porque a cabeçada de Lugano encontrou o travessão na última grande chance de gol da primeira etapa. E o jogo seguiria empatado por todo o segundo tempo e toda a prorrogação principalmente porque o goleiro uruguaio, Muslera, fazia a melhor partida de toda a sua vida. – Que venham os pênaltis. – Que vença o melhor. – Que vença o Uruguai. – Quem vai bater o primeiro? – Gol! –Gol! – Ahá, era uma vez a Argentina!!!

Enquanto Luis sentia uma felicidade estonteante, Glorinha foi dormir resignada com o resultado e lisonjeada com o ciúme bobo do marido, apesar daquele trocadilho com os nomes que achou totalmente over. – Agora é concentrar forças contra essa fênix celeste. – Não Preto, agora é ganhar do Paraguai. – Que venham o Santa Cruz, o Vera e o Verón e até o Quintanilha! – Mas você é pior que menino, Luis. – Por que? – Por nada não, boa noite. – Pode dizer, Preta. – Prefiro nem comentar. – Faço questão de ouvir. – Era só o que me faltava. – Diz, criatura. – Até amanhã, Luis! – Ora meu deus, Gloria!

Luis & Glorinha: o futebol e a ditadura da intimidade.

Embora às vezes pareçam dois conhecidos recentes, Luis e Glorinha vivem incontáveis aventuras diárias há quase 60 anos. Ele é tricolor de aço desde antes de nascer; ela, rubro-negra para além da imaginação. Juntos os dois veem os jornais, as novelas e todos os campeonatos existentes neste planeta, claro que sempre de lados opostos.  É que depois do futebol, o esporte preferido do casal é discordar.

Luis & Glorinha na Copa América 2011

13.07.11

Muitos acreditam há séculos que o sábado é o único dia abençoado da semana, mas Luis e Glorinha reconhecem nitidamente a divindade do domingo e da quarta, da terça e da sexta, dependendo da divisão, e até da segunda-feira, esta, aliás, tão temida quanto desejada dependendo dos resultados da rodada. Além de toda a resenha do domingo, esta semana começava com o último jogo da Argentina pela fase de classificação da Copa América, contra a Costa Rica, um bom aperitivo antes de Brasil e Equador, na quarta.

Luis e Glorinha conversaram bastante durante a tarde, ele ao telefone, com o filho, ela pelo computador, num chat de um programa esportivo, porque entre si trocaram mesmo alguns poucos monossílabos desde que o jogo da seleção feminina terminou. – Comigo tudo indo, meu filho, e você o que conta de novo? – Discordo totalmente de Otavio1970, o Bahia escapou de perder do Botafogo e não demora muito estará na zona de rebaixamento. – Eu tô achando que é ciúme, veja você, fico até sem jeito, Junior…– Prezado Otavio1970, veja lá como fala, existem regras de conduta aqui também seu insolente.

Assistiram juntos e calados ao jornal e à novela, mas não conseguiriam ficar imunes ao início do jogo porque a Argentina vinha modificada para esta partida, o que deixou Luis preocupado e Glorinha, animada. – Parece que o treinador mudou o time. – Hum. – Vamos ver se melhora mesmo. – Seu pedido há de ser uma ordem. – Ainda torcendo pra Argentina? – Sempre torcendo pelo bom futebol. – Nem sempre os dois se encontram. – Impressionante como o Bahia está em seu subsconsciente.

Um primeiro tempo bem movimentado com os dois times chutando a gol para boas defesas dos goleiros, mas com domínio portenho e um persistente 0 a 0. Crescia a apreensão do time e da torcida argentinos, principalmente após uma bola na trave aos 25 minutos, e as duas chances perdidas por Higuaín na cara do goleiro depois de dois passes de Messi, até que um pouco antes dos 45 minutos o genro de Maradona novamente salvou a pátria com um gol de puro oportunismo. O segundo tempo passaria mais solto em campo e no sofá porque primeiro a Argentina menos pressionada massacrou a frágil Costa Rica com uma grande atuação de Messi, Aguero e Di Maria, embora os 3 a 0 não demonstrem propriamente o que foi o jogo, e segundo porque Luis preferiu neste momento festejar discretamente as pazes com a esposa a lamentar a vitória do rival.

Durante toda a quarta-feira Luis desejou uma boa atuação da seleção brasileira para ajudar a apagar de vez qualquer mal entendido e respirou bastante aliviado quando viu que Maicon sairia de titular e que Jadson estaria entre os reservas, e nem comentou a ausência de Lucas porque optou por temas mais pueris. –  Robinho tá de volta, Preta, você viu que ele raspou o topete? A sorte parecia sorrir para os torcedores brasileiros quando Alexandre Pato de cabeça abriu o placar depois do cruzamento de André Santos, aos 28 minutos do primeiro tempo. Então gritaram gol juntos, se abraçaram, e pareciam ter superado todo o imbróglio do fim de semana até que aconteceu a incrível falha de Julio Cesar diante do chute fraco de Caicedo. Luis não conseguia acreditar. Logo hoje? – Ai, ai, ai, ai, ai. – Não há de ser nada, levanta Julio! – Isso é hora de engolir esse frango? – Falou o mais novo especialista da posição.

O segundo gol saiu logo no início do segundo tempo, com um passe preciso de Ganso pra Neymar enfim marcar o seu primeiro gol no torneio. Não demorou muito e parecia um replay, chute de Caicedo, falha de Julio Cesar e gol do Equador. 2 a 2. Então Pato apareceu novamente e marcou o seu segundo gol no jogo, o terceiro do Brasil, pegando rebote de um chute de Neymar de fora da área. Neymar que ainda marcaria seu segundo gol no jogo, o quarto do Brasil, depois de bela jogada de Maicon pela linha de fundo.

O Brasil afinal ganhou por 4 a 2 e se classificou para a segunda fase onde vai enfrentar, de novo, o Paraguai. Mas a desconfiança ainda paira sobre o time, principalmente na casa de Luis e Glorinha, que aliás está convencida de que assistir à seleção brasileira jogar atualmente é o melhor remédio pra dormir. Luis queria muito prolongar a paz recém chegada à casa e evitou reagir à provocação da esposa, mas evidentemente não conseguiu ficar calado. Porque algumas coisas não vão mudar nunca. – Pelo menos o Brasil ganhou o jogo. – Já o Bahia…- Está na série A. – Por enquanto. – Você é terrível, Preta. – Quem tem como me pagar não me deve nada, Luis. – Ora meu deus, Gloria!

Luis & Glorinha: o futebol e a ditadura da intimidade.

Embora às vezes pareçam dois conhecidos recentes, Luis e Glorinha vivem incontáveis aventuras diárias há quase 60 anos. Ele é tricolor de aço desde antes de nascer; ela, rubro-negra para além da imaginação. Juntos os dois veem os jornais, as novelas e todos os campeonatos existentes neste planeta, claro que sempre de lados opostos.  É que depois do futebol, o esporte preferido do casal é discordar.

Luis & Glorinha na Copa América 2011

10.07.11

Na alegria e na tristeza

Quando o domingo amanheceu com o céu azul Luis e Glorinha ficaram animados e cogitaram até uma caminhada na orla antes do almoço, mas a ideia não vingou por muito tempo porque eles lembraram dos inúmeros buracos a serem superados no percurso até a calçada, sem falar nas arapucas da própria calçada, um passo em falso e aí já viu, adeus ao jogo Brasil e Estados Unidos pelas quartas de final da copa do mundo de futebol feminino.

Planejaram o tempo necessário para cumprir todos os rituais dominicais e chegar o quanto antes no sofá, mas nem bem haviam sentado já foram surpreendidos pelo gol contra da zagueira brasileira com 1 minuto e 15 segundos do primeiro tempo. Então ela perdeu a cor e ele teve um princípio de indigestão. – Ai, ai, ai, ai, ai… – Mas que falta de sorte de Daiane, hein?! – Papagaio!!!! – Não há de ser nada, vamos virar esse jogo, Preto. – Sei não, ouvi dizer que essa goleira americana…

Enquanto o Brasil tentava assimilar o gol sofrido, Luis e Glorinha buscavam superar o mal estar, mas a seleção americana dominava o jogo e não permitia. A primeira chance brasileira de fato aconteceu num escanteio que Marta cobrou e Aline cabeceou na rede pelo lado de fora, mas a melhor chance do Brasil no primeiro tempo aconteceu com a própria Marta aos 22, numa arrancada de menos de 10 segundos do campo de defesa até a grande área americana só que o chute saiu por cima do gol. – Vai, deixa ela pra trás, isso, chuta, minha nossa senhora das graças!!!! – Oh, que pena! Ela merece. – Não pode desperdiçar uma oportunidade dessa, Marta!!! – Calma, Luis, olha a pressão, você não viu que tá faltando geriatra na cidade?

O primeiro tempo terminou 1 a 0 embora o Brasil tenha tido no mínimo três boas chances de empatar a partida com Formiga aos 26, de fora da área, numa bola que ela terminou isolando, com Cristiane, aos 35, num chute de longe que Solo defendeu com segurança, e com Rosana, que roubou uma bola na raça aos 37 e chutou no travessão. Então, diferente do que se podia imaginar, veio o intervalo e aumentou o incômodo no sofá. –  Vai ter que jogar muita bola pra ganhar esse jogo. – Mas o Brasil tem a melhor jogadora do mundo. – E os Estados Unidos, uma goleira formidável.

O clima chato piorou com o segundo tempo, primeiro com a nova defesa da goleira americana aos 14 minutos, segurando em 2 tempos o chute de Cristiane, e depois com a cabeçada de Loyd no travessão que podia ter definido a sorte brasileira na partida. Até que, para alívio de Luis e Glorinha e felicidade de toda a nação, Marta fez uma jogada incrível pela esquerda, deixando duas adversárias pra trás com um toque só, e foi derrubada dentro da área. Penalti pro Brasil, expulsão pra os Estados Unidos e alfinetada em Luis, porque Glorinha cansou de ignorar a saliência do marido.

– Isso é pênalti, é pênalti!!! – Com direito a um banho de cuia duplo! – Tem que expulsar, expulsa ela!!! – Para de gritar, Luis. – Por que a Marta não vai bater? – Schiiiiu. – Não é possível, meu deus!!!! – Olha o coração, Preto. – Voltou a cobrança! Agora deixa com a Marta. – Por que voltou, se a menina correu por cima da linha? – Não interessa, Gloria!!! – Boa Marta!!! E sua musa não saiu nem na foto.

O jogo terminou empatado em 1 a 1 e no início da prorrogação Luis e Glorinha já estavam mais do que unidos na ansiedade e na taquicardia porque mais do que um adversário com pinta de algoz, o Brasil precisava vencer o medo de perder. E havia porque acreditar já que Marta virou a partida no primeiro minuto. Houve um momento em que Marta, Luis e Glorinha tinham os mesmos punhos cerrados e olhos esbugalhados, mas Luis parecia gritar mais alto que todo mundo. – Gooool, golaaaço!!! – Goool!!! Ai meu deus, respira Luis!

Passada a euforia da virada, Luis e Glorinha permaneceram em silêncio, imersos em preces e análises sobre a partida e sonhando com o momento em que ouviriam o apito final, que chegou bastante diferente do que eles imaginaram porque a seleção americana empatou o jogo numa bela cabeçada de Wambach já nos acréscimos do tempo extra. Vieram, então, os derradeiros pênaltis e uma grande sensação de dejavú em mais um erro de Daiane, outra defesa decisiva da goleira americana e outra derrota brasileira. Glorinha estava simplesmente devastada. E Luis sinceramente comovido com sua tristeza.

– Com o jogo ganho…- Acontece, Glorinha. – É uma sensação indescritível. – Vai passar, Preta. – Podia fazer 3 a 1 e pronto acabou-se, mas Franciele deu aquele peteleco! – É que aquela goleira realmente…- Seu mal é esse Luis. – O que foi, agora, criatura? – Sentada espero, Luis. – Não se pode mais comentar nem o jogo com você? – Sonso. – Ora meu Deus, Gloria!

Luis & Glorinha: o futebol e a ditadura da intimidade.

Embora às vezes pareçam dois conhecidos recentes, Luis e Glorinha vivem incontáveis aventuras diárias há quase 60 anos. Ele é tricolor de aço desde antes de nascer; ela, rubro-negra para além da imaginação. Juntos os dois veem os jornais, as novelas e todos os campeonatos existentes neste planeta, claro que sempre de lados opostos.  É que depois do futebol, o esporte preferido do casal é discordar.

Luis & Glorinha na Copa América 2011

09.07.11

Presente, passado e futuro

Glorinha nunca iria acreditar, mas os 4 a 1 do Vitória sobre o Bragantino na noite de sexta em Pituaçu não são exatamente a explicação para Luis ter amanhecido assim introspectivo neste sábado chuvoso de inverno soteropolitano.

Acontece que desde a quinta feira Luis entrou no time dos que estão extremamente preocupados com a Copa de 2014, que já conta com muitos outros nomes importantes do cenário nacional. Só que para além dos inúmeros problemas que já são de conhecimento geral da nação, o velho tricolor se preocupa principalmente com um obstáculo que, a seu ver, pouca gente se deu conta até agora: o ressurgimento do futebol uruguaio.

Tudo começou logo no primeiro minuto do jogo entre Brasil e Uruguai pelo mundial sub 17, quando os garotos celestes apresentaram a sua proposta para esta partida com um contra-ataque fulminante que quase abriu o placar e fez Luis se arrepiar dos pés à cabeça. – Hum, não começamos nada bem, hein Luis? – Gloria, você sabe o que significa Brasil e Uruguai? – Se tem uma coisa que me tira do sério Luis, é essa sua, essa sua…- Experiência! –Empáfia!

Passado o susto inicial, Luis até gostava da atuação brasileira e vibrou muito com o lance em que Ademilson deu um chapéu em Velasquez e quase marcou um golaço, mas, um pouco antes dos 20 minutos, caiu um balde de água fria no sofá de Luis e Glorinha. – Ai, ai, ai, ai, tira essa bola daí! Sem fal, sem fal!  Assim não Goleiro!!!! – Penalti claro. – Mas Charles!! – Nesse caso não tem que ir expulso, Luis? Diz a regra que o último homem…

Glorinha não chegou a continuar porque compreendeu perfeitamente a delicadeza da situação no olhar fuzilante que recebeu do marido alguns segundos antes de ver a bola já posicionada na marca do cal. Alvarez cobrou e marcou o primeiro dos 3 gols uruguaios que acabaram por fim eliminando o Brasil do mundial, junto com uma atuação irretocável do goleiro Cubero, na técnica e na catimba.

Desde então Luis está desse jeito, taciturno. Glorinha, ao contrário, flutua a dois passos do chão como em geral acontece com quem vence um adversário, seja ele qual for, ainda mais de goleada. Por isso que quando se encontraram enfim no sofá pra acompanhar Brasil x Paraguai ele estava um tanto preocupado e ela bastante animada. – Esse treinador está me saindo pior que a encomenda. – O jogo nem começou e você já está reclamando, Luis? – Um pirracento de marca maior. – Impossível superar o anterior, Preto. – Nisso você tem razão, mas Jadson? – E você conhece esse rapaz? – Não!! – Seu mal é esse Luis.

Não bastasse o tempo fechado na capital da Bahia, Luis se aborreceu mais um pouco  quando o Paraguai surpreendeu a defesa brasileira logo aos 2 minutos e só não marcou o primeiro porque Santa Cruz chutou pra fora, na cara de Julio Cesar. E aí também começou a profusão de lampejos que se misturavam aos lances da partida fazendo o coração do velho tricolor bater mais rápido. Lembrou da derrota brasileira contra esse mesmo Paraguai em 2004 e do Brasil x Uruguai sub-17 da quinta passada – o que o levou inevitavelmente à questão do ressurgimento do futebol uruguaio e àquela derrota longínqua que convém nem mencionar, que o amigo Dr. Alberto Tancredi não só presenciou como definiu como o pior enterro de sua vida.

Alheia às lembranças e presságios de seu marido, Glorinha tentava sem sucesso ignorar alguns gestos dele, principalmente aquele que parecia expulsar um mosquito renitente e invisível. Mas decidiu por não comentar nada porque é da opinião de que se deve preservar alguma intimidade mesmo num casamento tão longo. Ele também não iria muito adiante, porque além das inúmeras camisas da sorte, dos pequenos rituais de preparação dos jogos, usa a indiferença como estratégia para afastar pensamentos de mau agouro e olho de seca pimenteira. Os dois concordam que existem coisas na vida que são realmente pessoais e intransferíveis.

O jogo seguia truncado e modorrento, mas Luis e Glorinha se mantinham acordados e apreensivos embora um pouco mais confiantes, principalmente depois que o Brasil quase marcou aos 13 minutos em bela jogada com a participação de Ganso, Jadson e Pato, e do goleiro paraguaio que mandou a bola pra escanteio. – Assim não dá, minha gente, tá faltando um centroavante de verdade. – Passe daquele Jadson, você viu Luis? – Glorinha, fique atenta a Neymar, vai ser o melhor do mundo.  Até que aos 39 minutos, o Brasil achou um gol e os dois se encontraram num abraço efusivo e efêmero. –  Golaço!!!!! – Que maravilha!! E que surpresa, hein Preto, Jadson!! – Ele não tava jogando nada, só fez o gol. – Só fez o gol que ninguém tinha feito? – Aháá, viu aí no replay quem tava no início da jogada? – Neymar?! – Não, Ramires!!!

O jogo ficou mais leve no sofá até o início do segundo tempo, que chegou com preocupações e desentendimentos mesmo antes da bola rolar. – Pronto, Luis, ele tirou o rapaz que fez o gol. – Sinal de que não tinha convicção. – Não, acho que foi o cartão amarelo. – Só que ainda tá faltando o centroavante. Os dois perderam momentaneamente a voz quando o Paraguai empatou a partida aos 10 minutos com Santa Cruz, o mesmo que já havia perdido uma chance incrível no primeiro tempo e estava num jejum de quase um ano sem marcar por sua seleção, e ficariam assim até o lance do gol perdido por Neymar, um pouco antes da virada paraguaia. – Esse goleiro tá me tirando do sério. – A verdade é que o Brasil tá jogando feio, meu filho. – Tem que tirar o Neymar! – Você precisa se decidir quanto a esse menino, Luis.

Enquanto o Paraguai conquistava uma vitória histórica, o Brasil jogava uma de suas piores partidas na opinião de quase todo mundo, principalmente na de Luis e Glorinha, mas provavelmente só Luis ainda acreditava num milagre que terminou chegando afinal aos 44 minutos. – Chuta, chuta, golaço!!!!! – Maravilha!!  – Eu não falei? –  Que rapaz inteligente esse Ganso, dois passes e dois gols! – Isso é gol de centroavante, tava faltando o Fred ali. – Aquele que você disse que era mais jogador de clube que de seleção? – Você é carne de pescoço, criatura.

Embora um tanto constrangidos, eles comemoraram o resultado porque é quase sempre uma vitória empatar um jogo no último minuto – salvo quando se é a seleção brasileira e o adversário é por assim dizer, a seleção paraguaia -, e foram dormir mais aliviados que felizes. Então, Luis perdeu o sono e Glorinha a paciência. – Em que você tá pensando que tanto inspira e expira, meu filho? – No Uruguai, Preta, e na Copa de 2014. – Mas o jogo foi contra o Paraguai, Luis, pela Copa América. – Eu sei, mas – Boa noite, Luis. – Ora meu deus, Gloria!

Luis & Glorinha: o futebol e a ditadura da intimidade.

Embora às vezes pareçam dois conhecidos recentes, Luis e Glorinha vivem incontáveis aventuras diárias há quase 60 anos. Ele é tricolor de aço desde antes de nascer; ela, rubro-negra para além da imaginação. Juntos os dois veem os jornais, as novelas e todos os campeonatos existentes neste planeta, claro que sempre de lados opostos.  É que depois do futebol, o esporte preferido do casal é discordar.

Luis & Glorinha na Copa América 2011

06.07.11

A Argentina e o Bahia

Apesar de seus muitos encantos, a quarta-feira poderia ser ainda melhor não fosse a interferência no horário e na duração da novela, além do horário do jogo, claro, 10 da noite, no meio da semana, um absurdo. Isso era ponto pacífico para Luis e Glorinha. Mas essa quarta-feira tinha mais cara de domingo para os dois aposentados, com os vários jogos da Copa do mundo, Copa América, Brasileiro, e por isso eles planejaram almoçar um pouco mais tarde.

– Então ficou assim: Brasil x Guiné, almoço, sesta, resenha, Bahia x Avaí…- É Avaí x Bahia, Preto. – Eu sei, Glória! – Calma, criatura, pareceu que não sabia. – Às 17h tem Brasil x Uruguai sub 17. – Esse é amanhã, Luis. – Você tá me desconcentrando, Glória. Avaí x Bahia, Flamengo x São Paulo ou Corinthians x Vasco. – Não senhor, no mesmo horário de Argentina x Colômbia? – E daí? – Tenha paciência, Luis. – Preta, esse timinho da Argentina não chega a fogo de palha, é puro blefe. – Essa me parece mais a descrição do Bahia, Luis. – Pois eu acho a cara do Vitória.

Se separaram logo após arrumarem a cozinha depois do café e durante toda a manhã ficariam entretidos com as notícias da cidade, do país, e principalmente, da rodada. Ele, na sala, com os jornais. Ela, com o computador, na saleta que tenta transformar numa sala de leitura e ele insiste chamar de seu escritório. Um pouco antes do meio dia, Luis cochilava sentado no sofá com o jornal nas mãos quando acordou sobressaltado em parte pelas necessidades do estômago, em parte porque pensou estar escutando coisas.

Vacilou entre o sono e a vigília por alguns segundos antes de decidir se levantar e caminhar sorrateiro, ainda mais devagar do que de costume, até confirmar o que vinha pensando no trajeto. Depois de alguns meses de convivência, Luis agradeceu pela primeira vez estar na companhia de sua bengala, porque por um momento chegou mesmo a perder o chão. – Ela está conversando com o computador?!

Depois do chão, perdeu a fome e a audição porque lançou mão de uma prática cada vez mais comum na casa que é tirar o aparelho do ouvido e ficar temporariamente alheio às tentativas de contato do mundo exterior. Quando entrou na sala 5 minutos atrasada e viu a tv ainda desligada Glorinha desconfiou que algo havia acontecido, mas aquele olhar enigmático de Luis e sobretudo o aparelho escapulindo do bolso indicavam que o negócio era mais sério.

O jogo meio xoxo do Brasil no primeiro tempo contribuiu para que ele continuasse amuado e para que ela pudesse matutar o que poderia ter causado tamanho estrago. Ele a observava um tanto ressabiado, mas já com o aparelho no ouvido, enquanto ela tentava se aproximar com comentários sobre o jogo até que o golaço de Erika antes dos 4 do segundo tempo inaugurou o placar e ajudou a melhorar o clima. – Golaço!!! Ahá, com banho de cuia! Já era hora. – Que maravilha, né Preto, golaço.

O jogo terminou 3 a 0 para o Brasil, que joga agora no domingo contra as rivais norte-americanas para chegar à semi-final, e se Glorinha mal pode esperar a hora dessa partida, Luis mal disfarça a ansiedade pelo jogo do Bahia e a preocupação com a esposa. Os dois se sentaram pra almoçar já sabendo todas as escalações, destaques e desfalques dos times que entrariam em campo logo mais à noite, mas ficaram o tempo todo calados como convém em geral a quem não sabe o que dizer.

Luis ficou bastante contrariado por não encontrar o jogo do Bahia no canal da antena que adquiriu especialmente para acompanhar o futebol, e talvez por isso não tenha percebido a ausência de sua esposa no sofá. Alcançou resignado o surrado radinho e ouvia o jogo sozinho na sala até os 19 minutos do primeiro tempo, quando o Avaí abriu o placar com Rafael Coelho, depois do rebote de Marcelo Lomba, e ele se levantou em direção à saleta intrigado com a sincronia do gol do Avaí e o grito de Glorinha. – Gol!!! Muito bem, meu rapaz!!! – Mas, criatura, você sintoniza o jogo do Bahia e nem me avisa? – Não é você que des-pre-za as novas tecnologias? – Não sei se você lembra, mas eu sou aquele que a-ma o Bahia. – Você não me deixa esquecer, meu amor.

Acompanharam então, juntos e pelo computador, o restante da partida. Ele achou estranha a transmissão, a luz, o tamanho da tela, as constantes interrupções do sinal e a familiaridade dela com o equipamento, mas decidiu se concentrar na partida. Ela ainda não havia entendido as oscilações de humor do marido, que julgava estranhamente mais gratuitas e constantes, e decidiu por uma oposição mais contida neste momento e uma conversa posterior com os filhos.

O Bahia assimilou rapidamente o gol sofrido e virou a partida com dois gols em dois minutos, de Junior e Paulo Miranda, duas gratas surpresas deste time tricolor, terminando o primeiro tempo na frente. – Eita que meu Bahia não conta conversa, estraga a festa de qualquer anfitrião. – Logo esse que não ganhou um jogo sequer neste campeonato? – Este campeonato, você disse muito bem, que aliás o seu time não disputa. – Cuidado que peixe morre é pela boca, Luis.

O segundo tempo começou com o Avaí pressionando o Bahia e os dois times perdendo chances claras de gol, para desespero duplo e oposto de Luis e Glorinha. Aos 9 minutos o tricolor perdeu sua maior oportunidade de definir o jogo até ali, com Marcos desperdiçando belo passe de Ricardinho. E o castigo veio mesmo a galope como disse Glorinha ao vento, porque Luis ficou impassível depois do gol de empate de Gustavo Bastos aos 12 minutos, chutando livre de dentro da pequena área.

O jogo terminou empatado, e Luis ficou convencido de que o Bahia poderia ter saído com a vitória no jogo de hoje. Diferente da Argentina que escapou de perder da Colômbia e vem fazendo um papelão na Copa América, em casa, depois do segundo empate sem gols em dois jogos. Glorinha no fundo concorda, mas claro que ele nem desconfia – Luis, sabe qual a semelhança entre a Argentina e o Bahia? Nenhum dos dois vence em casa.

Luis não conseguiu mais esquecer a frase, a expressão dela, toda a cena, definitivamente era chegada a hora de falar com os filhos sobre as idiossincrasias da esposa. Não dizia mais respeito à súbita paixão pelo futebol, na verdade isso agora é o mais fácil de entender. Ela passou a falar com o computador…tudo bem, são as tais novas mídias, não tem gente que responde boa noite ao William Bonner? Mas joguinho de palavras com estatística de futebol não, aí já era demais.

Embora não tivesse mais forças para uma última discussão que a situação sem dúvida exigia, Luis não conseguia conter sua indignação. – Que falta de respeito! – Vai dormir, criatura. – Ora meu deus, Glória!

Luis & Glorinha: o futebol e a ditadura da intimidade.

Embora às vezes pareçam dois conhecidos recentes, Luis e Glorinha vivem incontáveis aventuras diárias há quase 60 anos. Ele é tricolor de aço desde antes de nascer; ela, rubro-negra para além da imaginação. Juntos os dois veem os jornais, as novelas e todos os campeonatos existentes neste planeta, claro que sempre de lados opostos.  É que depois do futebol, o esporte preferido do casal é discordar.

03.07.11

Brasil x Venezuela

Domingo é o dia preferido de Luis, que sempre acompanhou todos os campeonatos que conheceu, da esquina à Plutão, in locu, pelo rádio ou pela tv, porque tem pavor das chamadas novas tecnologias. Ao contrário de Glorinha, que anda fascinada com o “lepitopi” que o filho mandou pelo correio com uma carta longa e explicativa.

E este domingo prometia. Era a primeira vez que vestiriam as mesmas cores para torcer desde que Glorinha anunciou estar apaixonada pelo Futebol, e ainda veriam juntos os dois jogos da Seleção Brasileira, o da seleção feminina, pela Copa do Mundo da Fifa, e o da seleção masculina, pela Copa América.

Mas a verdade é que ele acordou assim radiante porque foi dormir em êxtase com a derrota do “time que ele não gosta de pronunciar nem o nome”,  e que ouviu pelo rádio, bem baixinho, tentando evitar uma discussão. O que Luis ainda não sabe, é que Glorinha também acompanhava o jogo pelo computador e ouviu desde o início a movimentação do marido e a narração do locutor, além do sapateado que ecoou do banheiro no exato momento do gol do Barueri contra o Vitória, aos 12 do primeiro tempo na cabeçada de Marcelinho.

A manhã seguia amistosa porque Glorinha se esforçava pra não cair nas tentações da pirraça implícita no sorriso eterno e mal disfarçado de Luis. – Tá feliz, né Preto? – Domingo né, minha velha, melhor dia da semana. – Sei.

Até que se encontraram no sofá, devidamente vestidos de verde e amarelo pra acompanhar Brasil e Noruega. E não demorou muito estavam abraçados comemorando o primeiro gol de Marta, numa arrancada pela direita com um corte preciso pra bater no canto esquerdo da goleira Hjelmseth. – Que beleza de jogada! – Uma maravilha! Essa moça realmente é fora de série.

O menos importante para os dois naquele momento era a faltinha do início do lance. E à medida que Marta enfim desfilava como a melhor jogadora do planeta durante a Copa da Mundo, crescia o entusiasmo dos dois velhinhos apaixonados pelo futebol arte. Ainda não tinha completado o primeiro minuto do segundo tempo quando ela disparou pela esquerda e entrou na área norueguesa como quis, antes de achar Rosana livre pra chutar de pé direito e fazer o segundo gol do Brasil. Quando saiu o terceiro, o segundo de Marta no torneio e na partida, os dois já estavam completamente entregues à uma inesperada lua de mel.

Que evidentemente só durou até os minutos iniciais de Brasil e Venezuela, não exatamente pelas chances perdidas por Pato e Robinho, mas pelo comentário de Luis, que Glorinha julgou pirraça cifrada. – Mas será possível que esse pessoal não acerta o pé? – Tenha paciência, criatura, é só o primeiro jogo. – Se Jobson tivesse jogando já tava 1 a 0 pro Brasil fácil. – Mas realmente…seu mal é esse Luis. – O que foi agora, Gloria? – Eu te conheço, Luis, vc me aguarde.

Como era de se esperar, Luis e Glorinha discordaram da exibição de cada jogador, das substituições feitas por Mano Menezes e até do peso do empate no primeiro jogo. – É penalti!!! Isso é pênalti, seu juiz!!! – Penalti o quê, Luis, vc quer que o rapaz arranque o braço? Isso aí é bola na mão, meu querido … – Vai tirar Robinho pra botar Fred? Valha-me Deus! – Não era vc que tava pedindo pra tirar Robinho, Luis?? – Sim, mas era pra entrar o Lucas, não o Fred!

Veio o fim do jogo e o insistente 0 a 0 afinal prevaleceu. E Luis e Glorinha foram dormir chateados e cismados. Ele, com o resultado do jogo,  a reputação da seleção brasileira e a nova fase da esposa. Ela com a soberba tricolor do marido e com a política internacional. – Empatar com a Venezuela! Aonde é que nós estamos?! Quero saber como vai jogar contra o Paraguai – O que eu queria saber mesmo é onde se meteu o Chavez … – Ora meu deus, Glória!

Luis & Glorinha: o futebol e a ditadura da intimidade.

Embora às vezes pareçam dois conhecidos recentes, Luis e Glorinha vivem incontáveis aventuras diárias há quase 60 anos. Ele é tricolor de aço desde antes de nascer; ela, rubro-negra para além da imaginação. Juntos os dois veem os jornais, as novelas e todos os campeonatos existentes neste planeta, claro que sempre de lados opostos.  É que depois do futebol, o esporte preferido do casal é discordar.

01.07.11

Argentina x Bolívia

Quando sentaram no sofá pra acompanhar o primeiro jogo da Copa América 2011, Luis e Glorinha já tinham completado 24 horas sem trocar uma palavra. Um recorde de resistência às outras tantas oportunidades de briguinhas cotidianas que surgem por minuto dentro da irresistível ditadura da intimidade.

Continuariam assim, mudos, até pelo menos o apito inicial, onde certamente divergiriam já da escolha do primeiro toque ou da primeira jogada, não fosse o comentário de Luis ainda no final da cerimônia de abertura. – Essa Veveta é danada mesmo, olha só onde ela foi cantar. – Veveta? Que intimidade é essa? – Ô?! Já voltou a falar comigo? – Pois eu prefiro infinitamente Daniela, que tem muito mais bossa. – Já vai começar, criatura?

Glorinha tinha planejado tudo nos mínimos detalhes depois da discussão do dia anterior, da indiferença muda ao marido à torcida silenciosa pela seleção dos hermanos, com direito a um belo tango ao final da partida para comemorar a vitória do bom futebol. Precisou de alguns minutos pra se recuperar do primeiro tropeço, embora seu marido sequer tenha percebido o deslize.

O jogo seguiu morno em campo e no sofá até o gol de Edivaldo Rojas aos 2 minutos do segundo tempo, quando a Bolívia abriu o placar e Luis mandou a fleuma às favas – Golaço!!! Ahá, tome gol de calcanhar! Não é você que é apreciadora do futebol arte? Eu falei que a Argentina ia entrar pelo cano! E ainda com gol de brasileiro? Você precisa me ouvir mais, minha filha, ouve a voz da experiência, eu entendo do riscado.

– É isso aí, fala o que tiver vontade. Comemora bem enquanto dá, que por aí já se vê o que vai acontecer. Um gol besta, resultado de um toque despretensioso e da falha do menino em cima da linha. Mas não há de ser nada não, porque a Argentina estava muito melhor e vai…- Aonde que a Argentina tava muito melhor? A Argentina tá jogando pedra. Cadê o rapaz que dizem ser o melhor do mundo?

O fato é que depois do gol boliviano, Glorinha chegou mesmo a duvidar da sorte argentina na partida, principalmente depois de dois lances mais ou menos aos 20 do segundo tempo, quando Marcelo Moreno surgiu livre na cara do goleiro pra marcar o segundo e Di Maria desperdiçou o empate numa bola que saiu rente à trave. A essa altura, Luis já não se continha. – Assim não dá, assim fica difícil, tem que matar logo o jogo. Como é que ele perdeu esse gol? Cuidado com o contra-ataque, não deixa ele chutar, ai minha nossa senhora das graças!!! Olha onde passou essa bola!!!!!

Eis então que depois do último comentário do marido sobre a falta mal cobrada de Messi, ao perceber a entrada de Aguero, que na sua modesta opinião tinha futebol pra sair jogando, Glorinha falou calma e definitivamente, com sua classe costumeira, -Esse não é o genro do Maradona? Hummm, quem não faz toma.

Luis sabia que a mulher só tinha dito metade do que havia pensado, como fazia aliás com quase tudo na vida, mas rezava para que dessa vez ela estivesse equivocada. E o genro animava o velho tricolor com as chances que perdia, até o belo lançamento de Di Maria que encontrou Burdisso dentro da área, de peito aberto pra ajeitar na medida pro chute de… Aguero! Tudo sem deixar a bola cair no chão, numa linda sequência de fintas sobre a gravidade. Golaço. – Gol!! Golaço, tá vendo aí? Isso sim é que é golaço, não um gol sem querer porque o rapaz ficou nervoso, coitado. Tantos anos assistindo futebol e não entende nada!!!! Como foi que você disse? Ah, sim, realmente eu sou uma apreciadora convicta do futebol arte.

A pirraça continuou até o fim da partida e os dois ficaram afinal satisfeitos por não terem perdido, ao menos não teriam que suportar as gozações do pós jogo. Uma trégua parecia se esboçar, pelo menos até o próximo domingo, quando finalmente torceriam pelas mesmas cores. Parecia. Porque ao levantarem do sofá, já com a tv desligada, preparando-se para irem dormir, Luis teve a infeliz ideia de quebrar o silêncio: – Que zebra hein, Preta? – Achei um resultado totalmente normal, os jovens sempre ficam nervosos na estreia. – É verdade, só a Argentina estreou. Cadê a poderosa Argentina que queria ser Barcelona, jogando em casa com o melhor jogador do mundo, ainda achou um golzinho ali… – Achou um golzinho ali? Você pode até dizer que jogou mal, que perdeu uns golzinhos, mas fez aquele golaço, entendeu? Golaço. Mas não, você já vem…- Ô preta…-  Seu mal é esse Luis…– Não se pode mais falar nada nessa casa? – Tá vendo aí que é você que começa sempre? –  Ora meu deus Glória!