Luis & Glorinha na Copa América_05

Publicado: 13 de julho de 2011 em Luis & Glorinha - O futebol e a ditadura da intimidade

Luis & Glorinha: o futebol e a ditadura da intimidade.

Embora às vezes pareçam dois conhecidos recentes, Luis e Glorinha vivem incontáveis aventuras diárias há quase 60 anos. Ele é tricolor de aço desde antes de nascer; ela, rubro-negra para além da imaginação. Juntos os dois veem os jornais, as novelas e todos os campeonatos existentes neste planeta, claro que sempre de lados opostos.  É que depois do futebol, o esporte preferido do casal é discordar.

Luis & Glorinha na Copa América 2011

10.07.11

Na alegria e na tristeza

Quando o domingo amanheceu com o céu azul Luis e Glorinha ficaram animados e cogitaram até uma caminhada na orla antes do almoço, mas a ideia não vingou por muito tempo porque eles lembraram dos inúmeros buracos a serem superados no percurso até a calçada, sem falar nas arapucas da própria calçada, um passo em falso e aí já viu, adeus ao jogo Brasil e Estados Unidos pelas quartas de final da copa do mundo de futebol feminino.

Planejaram o tempo necessário para cumprir todos os rituais dominicais e chegar o quanto antes no sofá, mas nem bem haviam sentado já foram surpreendidos pelo gol contra da zagueira brasileira com 1 minuto e 15 segundos do primeiro tempo. Então ela perdeu a cor e ele teve um princípio de indigestão. – Ai, ai, ai, ai, ai… – Mas que falta de sorte de Daiane, hein?! – Papagaio!!!! – Não há de ser nada, vamos virar esse jogo, Preto. – Sei não, ouvi dizer que essa goleira americana…

Enquanto o Brasil tentava assimilar o gol sofrido, Luis e Glorinha buscavam superar o mal estar, mas a seleção americana dominava o jogo e não permitia. A primeira chance brasileira de fato aconteceu num escanteio que Marta cobrou e Aline cabeceou na rede pelo lado de fora, mas a melhor chance do Brasil no primeiro tempo aconteceu com a própria Marta aos 22, numa arrancada de menos de 10 segundos do campo de defesa até a grande área americana só que o chute saiu por cima do gol. – Vai, deixa ela pra trás, isso, chuta, minha nossa senhora das graças!!!! – Oh, que pena! Ela merece. – Não pode desperdiçar uma oportunidade dessa, Marta!!! – Calma, Luis, olha a pressão, você não viu que tá faltando geriatra na cidade?

O primeiro tempo terminou 1 a 0 embora o Brasil tenha tido no mínimo três boas chances de empatar a partida com Formiga aos 26, de fora da área, numa bola que ela terminou isolando, com Cristiane, aos 35, num chute de longe que Solo defendeu com segurança, e com Rosana, que roubou uma bola na raça aos 37 e chutou no travessão. Então, diferente do que se podia imaginar, veio o intervalo e aumentou o incômodo no sofá. –  Vai ter que jogar muita bola pra ganhar esse jogo. – Mas o Brasil tem a melhor jogadora do mundo. – E os Estados Unidos, uma goleira formidável.

O clima chato piorou com o segundo tempo, primeiro com a nova defesa da goleira americana aos 14 minutos, segurando em 2 tempos o chute de Cristiane, e depois com a cabeçada de Loyd no travessão que podia ter definido a sorte brasileira na partida. Até que, para alívio de Luis e Glorinha e felicidade de toda a nação, Marta fez uma jogada incrível pela esquerda, deixando duas adversárias pra trás com um toque só, e foi derrubada dentro da área. Penalti pro Brasil, expulsão pra os Estados Unidos e alfinetada em Luis, porque Glorinha cansou de ignorar a saliência do marido.

– Isso é pênalti, é pênalti!!! – Com direito a um banho de cuia duplo! – Tem que expulsar, expulsa ela!!! – Para de gritar, Luis. – Por que a Marta não vai bater? – Schiiiiu. – Não é possível, meu deus!!!! – Olha o coração, Preto. – Voltou a cobrança! Agora deixa com a Marta. – Por que voltou, se a menina correu por cima da linha? – Não interessa, Gloria!!! – Boa Marta!!! E sua musa não saiu nem na foto.

O jogo terminou empatado em 1 a 1 e no início da prorrogação Luis e Glorinha já estavam mais do que unidos na ansiedade e na taquicardia porque mais do que um adversário com pinta de algoz, o Brasil precisava vencer o medo de perder. E havia porque acreditar já que Marta virou a partida no primeiro minuto. Houve um momento em que Marta, Luis e Glorinha tinham os mesmos punhos cerrados e olhos esbugalhados, mas Luis parecia gritar mais alto que todo mundo. – Gooool, golaaaço!!! – Goool!!! Ai meu deus, respira Luis!

Passada a euforia da virada, Luis e Glorinha permaneceram em silêncio, imersos em preces e análises sobre a partida e sonhando com o momento em que ouviriam o apito final, que chegou bastante diferente do que eles imaginaram porque a seleção americana empatou o jogo numa bela cabeçada de Wambach já nos acréscimos do tempo extra. Vieram, então, os derradeiros pênaltis e uma grande sensação de dejavú em mais um erro de Daiane, outra defesa decisiva da goleira americana e outra derrota brasileira. Glorinha estava simplesmente devastada. E Luis sinceramente comovido com sua tristeza.

– Com o jogo ganho…- Acontece, Glorinha. – É uma sensação indescritível. – Vai passar, Preta. – Podia fazer 3 a 1 e pronto acabou-se, mas Franciele deu aquele peteleco! – É que aquela goleira realmente…- Seu mal é esse Luis. – O que foi, agora, criatura? – Sentada espero, Luis. – Não se pode mais comentar nem o jogo com você? – Sonso. – Ora meu Deus, Gloria!

comentários
  1. Avatar de Paulo Mascarenhas Paulo Mascarenhas disse:

    Fantástico !
    Inteligente, perspicaz e divertido…
    Vamos que vamos…

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