Luis & Glorinha: o futebol e a ditadura da intimidade.
Embora às vezes pareçam dois conhecidos recentes, Luis e Glorinha vivem incontáveis aventuras diárias há quase 60 anos. Ele é tricolor de aço desde antes de nascer; ela, rubro-negra para além da imaginação. Juntos os dois veem os jornais, as novelas e todos os campeonatos existentes neste planeta, claro que sempre de lados opostos. É que depois do futebol, o esporte preferido do casal é discordar.
Luis & Glorinha na Copa América 2011
09.07.11
Presente, passado e futuro
Glorinha nunca iria acreditar, mas os 4 a 1 do Vitória sobre o Bragantino na noite de sexta em Pituaçu não são exatamente a explicação para Luis ter amanhecido assim introspectivo neste sábado chuvoso de inverno soteropolitano.
Acontece que desde a quinta feira Luis entrou no time dos que estão extremamente preocupados com a Copa de 2014, que já conta com muitos outros nomes importantes do cenário nacional. Só que para além dos inúmeros problemas que já são de conhecimento geral da nação, o velho tricolor se preocupa principalmente com um obstáculo que, a seu ver, pouca gente se deu conta até agora: o ressurgimento do futebol uruguaio.
Tudo começou logo no primeiro minuto do jogo entre Brasil e Uruguai pelo mundial sub 17, quando os garotos celestes apresentaram a sua proposta para esta partida com um contra-ataque fulminante que quase abriu o placar e fez Luis se arrepiar dos pés à cabeça. – Hum, não começamos nada bem, hein Luis? – Gloria, você sabe o que significa Brasil e Uruguai? – Se tem uma coisa que me tira do sério Luis, é essa sua, essa sua…- Experiência! –Empáfia!
Passado o susto inicial, Luis até gostava da atuação brasileira e vibrou muito com o lance em que Ademilson deu um chapéu em Velasquez e quase marcou um golaço, mas, um pouco antes dos 20 minutos, caiu um balde de água fria no sofá de Luis e Glorinha. – Ai, ai, ai, ai, tira essa bola daí! Sem fal, sem fal! Assim não Goleiro!!!! – Penalti claro. – Mas Charles!! – Nesse caso não tem que ir expulso, Luis? Diz a regra que o último homem…
Glorinha não chegou a continuar porque compreendeu perfeitamente a delicadeza da situação no olhar fuzilante que recebeu do marido alguns segundos antes de ver a bola já posicionada na marca do cal. Alvarez cobrou e marcou o primeiro dos 3 gols uruguaios que acabaram por fim eliminando o Brasil do mundial, junto com uma atuação irretocável do goleiro Cubero, na técnica e na catimba.
Desde então Luis está desse jeito, taciturno. Glorinha, ao contrário, flutua a dois passos do chão como em geral acontece com quem vence um adversário, seja ele qual for, ainda mais de goleada. Por isso que quando se encontraram enfim no sofá pra acompanhar Brasil x Paraguai ele estava um tanto preocupado e ela bastante animada. – Esse treinador está me saindo pior que a encomenda. – O jogo nem começou e você já está reclamando, Luis? – Um pirracento de marca maior. – Impossível superar o anterior, Preto. – Nisso você tem razão, mas Jadson? – E você conhece esse rapaz? – Não!! – Seu mal é esse Luis.
Não bastasse o tempo fechado na capital da Bahia, Luis se aborreceu mais um pouco quando o Paraguai surpreendeu a defesa brasileira logo aos 2 minutos e só não marcou o primeiro porque Santa Cruz chutou pra fora, na cara de Julio Cesar. E aí também começou a profusão de lampejos que se misturavam aos lances da partida fazendo o coração do velho tricolor bater mais rápido. Lembrou da derrota brasileira contra esse mesmo Paraguai em 2004 e do Brasil x Uruguai sub-17 da quinta passada – o que o levou inevitavelmente à questão do ressurgimento do futebol uruguaio e àquela derrota longínqua que convém nem mencionar, que o amigo Dr. Alberto Tancredi não só presenciou como definiu como o pior enterro de sua vida.
Alheia às lembranças e presságios de seu marido, Glorinha tentava sem sucesso ignorar alguns gestos dele, principalmente aquele que parecia expulsar um mosquito renitente e invisível. Mas decidiu por não comentar nada porque é da opinião de que se deve preservar alguma intimidade mesmo num casamento tão longo. Ele também não iria muito adiante, porque além das inúmeras camisas da sorte, dos pequenos rituais de preparação dos jogos, usa a indiferença como estratégia para afastar pensamentos de mau agouro e olho de seca pimenteira. Os dois concordam que existem coisas na vida que são realmente pessoais e intransferíveis.
O jogo seguia truncado e modorrento, mas Luis e Glorinha se mantinham acordados e apreensivos embora um pouco mais confiantes, principalmente depois que o Brasil quase marcou aos 13 minutos em bela jogada com a participação de Ganso, Jadson e Pato, e do goleiro paraguaio que mandou a bola pra escanteio. – Assim não dá, minha gente, tá faltando um centroavante de verdade. – Passe daquele Jadson, você viu Luis? – Glorinha, fique atenta a Neymar, vai ser o melhor do mundo. Até que aos 39 minutos, o Brasil achou um gol e os dois se encontraram num abraço efusivo e efêmero. – Golaço!!!!! – Que maravilha!! E que surpresa, hein Preto, Jadson!! – Ele não tava jogando nada, só fez o gol. – Só fez o gol que ninguém tinha feito? – Aháá, viu aí no replay quem tava no início da jogada? – Neymar?! – Não, Ramires!!!
O jogo ficou mais leve no sofá até o início do segundo tempo, que chegou com preocupações e desentendimentos mesmo antes da bola rolar. – Pronto, Luis, ele tirou o rapaz que fez o gol. – Sinal de que não tinha convicção. – Não, acho que foi o cartão amarelo. – Só que ainda tá faltando o centroavante. Os dois perderam momentaneamente a voz quando o Paraguai empatou a partida aos 10 minutos com Santa Cruz, o mesmo que já havia perdido uma chance incrível no primeiro tempo e estava num jejum de quase um ano sem marcar por sua seleção, e ficariam assim até o lance do gol perdido por Neymar, um pouco antes da virada paraguaia. – Esse goleiro tá me tirando do sério. – A verdade é que o Brasil tá jogando feio, meu filho. – Tem que tirar o Neymar! – Você precisa se decidir quanto a esse menino, Luis.
Enquanto o Paraguai conquistava uma vitória histórica, o Brasil jogava uma de suas piores partidas na opinião de quase todo mundo, principalmente na de Luis e Glorinha, mas provavelmente só Luis ainda acreditava num milagre que terminou chegando afinal aos 44 minutos. – Chuta, chuta, golaço!!!!! – Maravilha!! – Eu não falei? – Que rapaz inteligente esse Ganso, dois passes e dois gols! – Isso é gol de centroavante, tava faltando o Fred ali. – Aquele que você disse que era mais jogador de clube que de seleção? – Você é carne de pescoço, criatura.
Embora um tanto constrangidos, eles comemoraram o resultado porque é quase sempre uma vitória empatar um jogo no último minuto – salvo quando se é a seleção brasileira e o adversário é por assim dizer, a seleção paraguaia -, e foram dormir mais aliviados que felizes. Então, Luis perdeu o sono e Glorinha a paciência. – Em que você tá pensando que tanto inspira e expira, meu filho? – No Uruguai, Preta, e na Copa de 2014. – Mas o jogo foi contra o Paraguai, Luis, pela Copa América. – Eu sei, mas – Boa noite, Luis. – Ora meu deus, Gloria!