Luis & Glorinha: o futebol e a ditadura da intimidade.
Embora às vezes pareçam dois conhecidos recentes, Luis e Glorinha vivem incontáveis aventuras diárias há quase 60 anos. Ele é tricolor de aço desde antes de nascer; ela, rubro-negra para além da imaginação. Juntos os dois veem os jornais, as novelas e todos os campeonatos existentes neste planeta, claro que sempre de lados opostos. É que depois do futebol, o esporte preferido do casal é discordar.
01.07.11
Argentina x Bolívia
Quando sentaram no sofá pra acompanhar o primeiro jogo da Copa América 2011, Luis e Glorinha já tinham completado 24 horas sem trocar uma palavra. Um recorde de resistência às outras tantas oportunidades de briguinhas cotidianas que surgem por minuto dentro da irresistível ditadura da intimidade.
Continuariam assim, mudos, até pelo menos o apito inicial, onde certamente divergiriam já da escolha do primeiro toque ou da primeira jogada, não fosse o comentário de Luis ainda no final da cerimônia de abertura. – Essa Veveta é danada mesmo, olha só onde ela foi cantar. – Veveta? Que intimidade é essa? – Ô?! Já voltou a falar comigo? – Pois eu prefiro infinitamente Daniela, que tem muito mais bossa. – Já vai começar, criatura?
Glorinha tinha planejado tudo nos mínimos detalhes depois da discussão do dia anterior, da indiferença muda ao marido à torcida silenciosa pela seleção dos hermanos, com direito a um belo tango ao final da partida para comemorar a vitória do bom futebol. Precisou de alguns minutos pra se recuperar do primeiro tropeço, embora seu marido sequer tenha percebido o deslize.
O jogo seguiu morno em campo e no sofá até o gol de Edivaldo Rojas aos 2 minutos do segundo tempo, quando a Bolívia abriu o placar e Luis mandou a fleuma às favas – Golaço!!! Ahá, tome gol de calcanhar! Não é você que é apreciadora do futebol arte? Eu falei que a Argentina ia entrar pelo cano! E ainda com gol de brasileiro? Você precisa me ouvir mais, minha filha, ouve a voz da experiência, eu entendo do riscado.
– É isso aí, fala o que tiver vontade. Comemora bem enquanto dá, que por aí já se vê o que vai acontecer. Um gol besta, resultado de um toque despretensioso e da falha do menino em cima da linha. Mas não há de ser nada não, porque a Argentina estava muito melhor e vai…- Aonde que a Argentina tava muito melhor? A Argentina tá jogando pedra. Cadê o rapaz que dizem ser o melhor do mundo?
O fato é que depois do gol boliviano, Glorinha chegou mesmo a duvidar da sorte argentina na partida, principalmente depois de dois lances mais ou menos aos 20 do segundo tempo, quando Marcelo Moreno surgiu livre na cara do goleiro pra marcar o segundo e Di Maria desperdiçou o empate numa bola que saiu rente à trave. A essa altura, Luis já não se continha. – Assim não dá, assim fica difícil, tem que matar logo o jogo. Como é que ele perdeu esse gol? Cuidado com o contra-ataque, não deixa ele chutar, ai minha nossa senhora das graças!!! Olha onde passou essa bola!!!!!
Eis então que depois do último comentário do marido sobre a falta mal cobrada de Messi, ao perceber a entrada de Aguero, que na sua modesta opinião tinha futebol pra sair jogando, Glorinha falou calma e definitivamente, com sua classe costumeira, -Esse não é o genro do Maradona? Hummm, quem não faz toma.
Luis sabia que a mulher só tinha dito metade do que havia pensado, como fazia aliás com quase tudo na vida, mas rezava para que dessa vez ela estivesse equivocada. E o genro animava o velho tricolor com as chances que perdia, até o belo lançamento de Di Maria que encontrou Burdisso dentro da área, de peito aberto pra ajeitar na medida pro chute de… Aguero! Tudo sem deixar a bola cair no chão, numa linda sequência de fintas sobre a gravidade. Golaço. – Gol!! Golaço, tá vendo aí? Isso sim é que é golaço, não um gol sem querer porque o rapaz ficou nervoso, coitado. Tantos anos assistindo futebol e não entende nada!!!! Como foi que você disse? Ah, sim, realmente eu sou uma apreciadora convicta do futebol arte.
A pirraça continuou até o fim da partida e os dois ficaram afinal satisfeitos por não terem perdido, ao menos não teriam que suportar as gozações do pós jogo. Uma trégua parecia se esboçar, pelo menos até o próximo domingo, quando finalmente torceriam pelas mesmas cores. Parecia. Porque ao levantarem do sofá, já com a tv desligada, preparando-se para irem dormir, Luis teve a infeliz ideia de quebrar o silêncio: – Que zebra hein, Preta? – Achei um resultado totalmente normal, os jovens sempre ficam nervosos na estreia. – É verdade, só a Argentina estreou. Cadê a poderosa Argentina que queria ser Barcelona, jogando em casa com o melhor jogador do mundo, ainda achou um golzinho ali… – Achou um golzinho ali? Você pode até dizer que jogou mal, que perdeu uns golzinhos, mas fez aquele golaço, entendeu? Golaço. Mas não, você já vem…- Ô preta…- Seu mal é esse Luis…– Não se pode mais falar nada nessa casa? – Tá vendo aí que é você que começa sempre? – Ora meu deus Glória!